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A resistência do adicto

  • Foto do escritor: José Lurker
    José Lurker
  • 26 de jan.
  • 3 min de leitura

"Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser."

Johann Goethe


Poderíamos falar de resistência, ou tolerância, expressão mais adequada do ponto de vista farmacológico, que permite, ou obriga o adicto a um consumo de quantidades cada vez maiores de droga para chegar ao efeito desejado. Ou poderíamos falar de sua resistência a mudanças - de permanecer no mesmo lugar, repetindo indefinidamente o mesmo ritual de intoxicação, sem conseguir a energia e a decisão que lhe permitiriam mudar. Mas gostaria de falar da resistência do adicto ao sofrimento. Embora às vezes (ou frequentemente), vista com glamour, ou como uma fonte incomum de prazer, a vida de um adicto é uma vida de permanente sofrimento. A repetitividade é um deles - planejar a obtenção da droga, conseguir a droga, usar a droga, se recuperar dos efeitos da droga - às vezes, um breve lapso - e o ciclo se reinicia, indefinidamente.... Não há o glamour nem prazer nisso. O glamour do uso de drogas pertence à outra época, quando às consequências devastadoras de seu uso não eram tão conhecidas. Hoje o que se vê são vidas destruídas, ilusões que se desfazem ao primeiro toque, comércio, ambição, dinheiro para quem vive da venda das drogas. O mundo glamuroso das bandejas de prata, regadas à champanhe e olhares sedutores. É muito mais para lugares obscuros nas favelas. Motocicletas e carros suspeitos - fenômeno atual do delivery. Isso tornou o acesso às drogas incrivelmente facilitado. Basta um WhatsApp, um pedido, e, em instantes, a droga chega em sua mão. Peraí. Não é assim. A resistência de que falamos é relativa à resistência ao sofrimento. O tempo perdido em tentar obter a droga, usar, e se recuperar é enorme. A demora para a chegada da substância é sofrida: cada segundo e a cada minuto que se passa. A espera é fatal: será que está chegando? Quanto tempo? Já tá vindo? E o cara não responde.... Dez minutos se transformam em meia hora, meia hora em 1 hora,.... e o adicto ali sofrendo, esperando sua dose de veneno, paralisado - não consegue fazer nada. Existem os usuários "recreativos" , mas o verdadeiro adicto, que depende da substância para viver? Está paralisado, não consegue fazer que não seja: planejar, obter, usar e se recuperar do uso de drogas. Sua vida se está progressivamente mais vazia. E empobrecida. Tive oportunidade de conviver (felizmente, por poucos momentos) com os usuários de crack. É uma vida profundamente triste. Emaciados, sujos, envelhecidos, feios, descuidados, verdadeiros zumbis, vivem uma absoluta escravidão à droga. Podem não ser todos, mas a maioria. É uma vida de absoluto desespero. O único momento de satisfação é aquele em que a brasa se acende - isso termina poucos minutos depois, quando a ideia é - mais. E sempre acabou. Porque são miseráveis, vivem atrás de moedas, latinhas, qualquer coisa que possa ser trocada por uma pedra. Sexo, inclusive, desprovido de qualquer prazer. É uma vida triste e miserável. Mas todo adicto sofre. Sua vida é uma constante busca da droga para satisfazê-lo imediatamente. E os prazeres da vida vão se dissolvendo, viram areia, pois o centro de tudo se torna a droga. As coisas não têm graça. O que gostava de fazer, perde o sentido: almoçar com a família e os amigos, caminhar, ir ao cinema, ver filmes, ler, escrever, conversar, tomar um café - tudo isso perde o brilho em nome do sofrimento de usar mais. Falam que o adicto usa a droga por falta de esforço, de força de vontade, porque quer, porque assim decide. Não há decisão, a decisão está sempre dada. Sua escolha é sempre usar. Usar drogas é sua escolha natural - e não o contrário. Dessa forma não consegue escolher outras coisas - as coisas que dão sentido e beleza à vida. A conexão com as pessoas. Isso só começa a se fazer possível com a desintoxicação - e leva tempo. Mas a resistência dos adictos ao sofrimento é descomunal. Chuva, frio, humilhações, a dor de ver o sofrimento estampado nos olhos dos outros, e não conseguir mudar nada. Os desastres financeiros, as doenças físicas, adictos suportam tudo em nome da droga. Têm uma resistência incomum que poderia ser usada para o bem, para a reconstrução. Se esta chave mudar de direção, a Recuperação é possível. Existem muitos exemplos entre nós.


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